Fui ao South Summit esse ano (2026). Pelo menos 80% dos painéis falavam sobre algo + AI. Então resolvi colocar algumas ideias no papel, não sobre a tecnologia em si, mas sobre como as pessoas estão reagindo a ela.

E não estou falando do que vi no Summit. No Summit eu vi palestrantes incríveis e insights de verdade. Estou falando do que vejo todo dia na internet, no LinkedIn, em qualquer lugar onde o assunto AI aparece.

Vamos separar as pessoas em três categorias, só pra facilitar a explicação. Pense menos em caixas e mais em tons de um espectro.

  • Os negacionistas
  • Os animados
  • Os céticos

Vou ser direto.


A bolha dos negacionistas

Os negacionistas sustentam sua posição como uma pose. É a mesma energia de usar Vim pra codar, ou insistir que andar a cavalo é mais "autêntico" do que pegar um avião. A ferramenta muda, o destino é o mesmo. Mas esse não é o ponto pra eles. O ponto é a identidade que constroem ao rejeitar o que é novo.

No Summit você quase não os vê. Eles vivem na internet. Mas acredito que quanto mais alto o hype, mais forte eles reagem. Os animados estão alimentando isso.


A bolha dos animados

Os animados acreditam em algum paraíso guiado por AI onde todo problema humano se resolve com um prompt como "cure o câncer, por favor." Eles veem a tecnologia e projetam nela tudo que gostariam que o mundo fizesse: pular toda a complexidade, todas as restrições, todos os anos de conhecimento acumulado.

Isso causa muito estrago no mercado. Promessas são feitas. Produtos são vendidos. Investidores colocam o dinheiro. E então a realidade chega, e as promessas não acontecem. Não porque a tecnologia não presta, mas porque ela nunca foi capaz do que foi prometido. Quem acreditou nos animados se sente traído. Alguns viram negacionistas.


A bolha dos céticos

Os céticos já entendem como a AI funciona. Usaram de verdade, não como truque de salão. Sabem onde ajuda e onde falha. Constroem fluxos de trabalho com ela. Falam sobre a coisa real, não a imaginada.

O problema é que estão quietos demais.

A internet está cheia de conteúdo gerado por AI: resumos automáticos, hot takes, threads carregadas de promessas. Os céticos existem, mas não estão ocupando o espaço do jeito que os animados estão. Isso precisa mudar.

Acredito que os céticos precisam começar a construir e escrever mais publicamente. Ferramentas que empoderem pessoas, não as substituam. Artigos que descrevam a experiência real de usar AI, não a imaginada.


O que eu acho que erramos

Tem um padrão que continuo notando: tanto os negacionistas quanto os animados estão reagindo à mesma ficção: a ideia de que AI vai substituir humanos em assuntos humanos.

O negacionista diz "nunca vai" e usa isso como razão pra não se envolver.
O animado diz "vai com certeza" e usa isso como razão pra investir e prometer.

Os dois estão se orientando por algo que não está acontecendo. AI é uma ferramenta. Uma ferramenta genuinamente útil, genuinamente limitada. Ela muda como alguns trabalhos parecem. Não muda pra que o trabalho existe.

O maior estrago que a AI pode causar não é substituir alguém. É fazer as pessoas acreditarem que vai, e aí ou se afastarem completamente, ou investirem tão fundo nessa crença que param de fazer as partes difíceis, humanas, do seu trabalho.


Pra fechar

Saí do South Summit mais convicto de que o problema não é a tecnologia. O problema é a conversa que estamos tendo sobre ela.

Os negacionistas precisam separar a identidade deles das ferramentas. Os animados precisam ser honestos sobre o que existe hoje, não o que só existe em pitch decks. E os céticos (as pessoas que de fato entendem isso) precisam falar mais alto.

Não pra combater o hype. Mas silêncio também é uma escolha, e alguém vai preencher esse espaço.

Se pareceu um desabafo, talvez tenha sido. Mas acho que vem do lugar certo. A gente tá tudo tentando entender isso.